terça-feira, 17 de novembro de 2009

O vazio do sol


Ainda que olhando para a vida com benevolência e boa vontade, o que se pode esperar que aconteça? Entre um tédio e outro, entre um objetivo alcançado e a sua imediata insignificância, entre um fracasso e um contentamento, a foice do tempo vence aos poucos o combate... e nada não nos salvará no final.

Corremos sem propósito porque parar não é uma escolha. A triste sombra posterior a uma felicidade, o crepúsculo de qualquer satisfação estéril, por essa existência tem sido companheiras de todas as horas. O sol acaba sempre se pondo. E por isso você corre e corre pra fugir das sombras, mas ele nunca vai parar de se pôr, para levantar-se atrás de você apenas em um outro dia. E se o frio de uma sombra constante nos congela, o impossível alcance pleno da luz nos queimaria: só em movimento mantêm-se um equilíbrio sem sentido que nos conduzirá em linha reta até a morte.

Acredite então no que conseguir. E sonhe com um paraíso além do sol e longe do tédio, em que a existência em si seria suficiente. Imagine o fim da dor e da miséria, da vontade e da lembrança. Esqueça que talvez o que esteja errado seja essa vida. Que quem sabe já tenhamos morrido e renascido várias vezes sem saber e hoje, aqui, estejamos no inferno - amaldiçoados em desejar e nunca se satisfazer; em realizar e tornar ao vazio; em nascer e morrer sem nunca firmar a certeza de um motivo. Ignore também a possibilidade de que todas as experiências, todos os sentimentos que rompem a consciência em explosões de serotonina e adrenalina, nada mais sejam do que a forma biológica desenvolvida pela nossa espécie para salvar-se de si mesma, para evitar que o tédio nos conduza a um suicídio inevitável, um auto-homicídio em legítima defesa.

Na caverna, onde as sombras refletidas pela luz de qualquer fogueira representam não mais a sombra, mas a realidade em si, o homem encontra a paz. Distante da razão e próximo à vontade da natureza - essa força extraordinária, sedenta pela imortalidade das espécies, mas indiferente aos indivíduos. Ao esquecer do sol e do eterno retorno ao nada, ao abrir mão da batalha pela vida para ao invés disso abandoná-la. Na caverna, a constância da fogueira é suficiente. O sol e as estrelas são para os olhos capazes de admirá-los.

De sonhos em sonhos, os dez anos da canção há muito tempo já ficaram para trás. Confortavelmente anestesiados pelas cores e as sombras mais bonitas do passado. A filosofia perdeu a batalha, talvez mesmo antes do início, talvez para sempre. As pedras tombaram na saída e não há salvação além de nós e da caverna. Tudo desmorona, exceto a caverna. O amor sobrevive. E a sua dor não vai curar você. Talvez, o amor, talvez. Ninguém é feliz por completo no presente, mas alguns ossos só se aquecem ao sol.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Nietzsche e o terreiro de macumba

Dona Deise ficou viúva mês passado. Inconformada com a nova situação, deu mais ouvidos à comadre que lhe dizia para tentar o contato com o falecido direto do além. Em meio ao desespero silencioso de sua alma, buscou o terreiro de Pai Maneco de Ogum. O espanto foi grande após o cachimbo do preto velho apagar e o espírito seguinte não ser o do finado esposo. Afirmou chamar-se Nietzsche.

- O senhor é um espírito do bem?

- Defina “bem”.

- Ah meu filho, que ajuda as pessoas, segue a vontade de Deus...

A resposta chocou Dona Deise, que tentou pensar em algo a dizer, mas já era tarde. Nietzsche desencarnara do pai de santo.Voltou para casa sem mais lembrar do falecido.

Aos 85 anos, poucas foram as noites que Dona Deise esqueceu as rezas antes de dormir. Dois “pai-nossos” e duas “ave-marias”, que somados ao dízimo e à caridade, de acordo com o Padre Zeca, seriam suficientes para ela garantir a eternidade no céu. Essa noite não foi diferente e com duas velas acesas, uma para o finado marido e outra para o espírito de nome complicado que ela já não recordava a pronúncia, emendou nas orações rotineiras um “creio em Deus pai”. Realmente acreditava, mas as palavras do espírito lhe deixaram a desconfiança, que em um instante é capaz de fazer ruir todas as crenças. “Deus está morto.” Passou a duvidar de tudo.

A sagrada família veio a ser o primeiro alvo. E se Jesus fosse apenas alguém que ouvisse vozes? E se Deus não existisse? Maria teria ficado grávida, assim como em toda a história da raça humana e da maioria dos animais, por que fez sexo? Por um momento lhe veio à mente a imagem de Nossa Senhora, que em movimentos sensuais, despia-se do manto sagrado sob o olhar atento de José. A imagem seguinte foi ainda mais perturbadora. Viu a si própria, com um rosário na mão, repetindo a mesma cena inútil por toda a vida. – “Não respeitaria um Deus que tem necessidade de ser adorado o tempo todo”- Pensou na Bíblia, nas guerras e nos mortos. - “Vista luvas contra a sujeira antes de abrir o Novo Testamento”-. E sentiu compaixão por si mesma. - “O homem perde poder quando se compadece e o sofrimento multiplica-se”-.

Não era bom admitir, mas as frases do espírito a essa altura já se assemelhavam mais à verdade que à loucura. Mais do que isso, despertavam-na para o abismo que uma conclusão a levaria. Teria que admitir que o Deus cristão, caso exista da maneira como foi concebido, não passe de um sádico. Que mais provável seria Ele representar uma espécie de alter-ego de toda podridão nefasta que habita o coração do homem comum, consumido por suas mazelas, ignorado e impotente perante a vida, e que abraça essa ignorância como única forma de sobreviver a sua própria miséria. Sacrifica-se na penitência por não ser digno nem de piedade. “E aqueles que dançavam foram julgados insanos por aqueles incapazes de ouvir a música”. E que talvez as instituições cristãs tenham mesmo tomado partido de tudo o que é fraco, baixo e fracassado e, a partir disso, forjado um ideal de oposição a todos os instintos de preservação da vida saudável. Na negação da natureza, vêem tudo o que seja contrário a esses instintos como uma glória a ser alcançada; no egoísmo transformado em culpa, elevam o amor ao próximo e o “desinteresse” para um lugar acima do amor a si mesmo; na invenção da alma, abandonam o corpo; na invenção do além, subjugam esse mundo. E quiçá que a história ocidental tenha se erguido sobre esses pilares, que de tão fracos só são capazes de sustentar a leveza intrínseca a uma sociedade de dementes, que em uma corrida demente, foge o mais rápido que pode de qualquer vestígio de algo que os leve a pensar ao invés de apenas procurar a posição mais confortável no rebanho. E ignoram assim por toda vida a beleza da experiência humana e de sua complexidade, das quais só os mais fortes conseguem ter uma idéia e encará-la ao invés de tentar esquecê-la. De que pode não existir mais nada, e que possamos desaparecer pela eternidade no dia seguinte, mas mesmo assim sentir que essa vida é extraordinária e merece ser aproveitada ao máximo e sempre.

Dona Deise já desistira de dormir. Experimentava pela primeira vez em anos uma sensação nova, que não saberia descrever, mas que habita uma zona entre o desespero e o remorso daqueles que descobrem tarde demais o quanto haviam sido enganados. Tentou chorar e não conseguiu. Lembrou-se que de certa forma foi feliz. E de que sempre foi cômoda a certeza. Em contrapartida, recordou-se dos prazeres de que se absteve, dos pecados inexistentes pelos quais se culpou e, acima de tudo, de que perdeu tempo, muito tempo, essa medida preciosa que já lhe falta e que talvez nunca volte. Se a morte há pouco parecia um reinício, agora lhe ameaça como o fim nada glorioso de uma existência ofuscada pela moral e quase destruída pelo tempo. Quis acreditar de novo e não conseguiu. Tentou conformar-se com a liberdade.

Foi só então que, passado um pouco o choque provocado pelo discurso do espírito e descontada a ingenuidade da interlocutora, Dona Deise abriu os olhos para o que poderia tê-la confortado desde o início. Se um espírito havia mesmo entrado em contato com ela, só o fato de ele existir, já faria de metade das coisas que foram ditas mentiras. A outra metade certamente seria resultado de uma alma perturbada que ainda não encontrou do outro lado o caminho para a luz. A vida voltava a ser bela. Agora só precisava decidir se acreditaria daqui para frente no cristianismo e na eternidade no reino dos céus ao lado de Jesus, ou na umbanda, espiritismo, ou alguma outra crença que justifique a experiência desta tarde.

Acabou por esquecer a escolha. Seguiu pelos seus dias sem nunca mais duvidar de nada. Achou melhor acreditar em tudo, seja no padre, no bispo, no pastor ou no pai de santo. Se conhecesse Buda, Shiva ou Zaratustra, acreditaria também. Criou um método peculiar em que através dele esquecia-se automaticamente das contradições que cada doutrina pudesse carregar em relação às outras. Era como se cada uma ocupasse uma área isolada das demais, e que podia ser acionada de acordo com a situação. Dependendo da graça divina a ser alcançada, rezava aos santos católicos, entregava metade da sua aposentadoria às igrejas evangélicas ou recorria a intervenções espíritas. Quando foi apresentada a Alá, passou a usar a burca. O que na sinagoga causou espanto à comunidade judaica, da qual já fazia parte.

Meses depois voltou a freqüentar o terreiro de Pai Maneco de Ogum. Ato que descoberto pelo missionário J. J. Souza, super pastor de uma das igrejas evangélicas da qual era fiel, serviu de tema principal para a pregação anterior à sessão de descarrego. Acusada de adoradora do demônio, acreditou quando foi informada que estava possuída. Entregou dessa vez a aposentadoria inteira para se ver livre do encosto.

Na semana seguinte, utilizando-se do método para esquecer as divergências, voltou ao terreiro de Pai Maneco de Ogum. Lá foi informada pelo novo proprietário da casa que o pai de santo agora atende na cadeia, preso por estelionato e charlatanismo. A essa altura nem se deu conta de que fosse o Pai Maneco de Ogum um vigarista, o episódio do espírito teria sido uma farsa. E que não tendo de fato entrado em contato com o mundo do além, todas as dúvidas voltariam, já que, a princípio, foi o conteúdo do discurso do espírito que se dizia chamar Nietzsche que a impressionara e a fizera pensar por si e não o fato desse conteúdo ter sido dito por um espírito encarnado no corpo de Pai Maneco. O contato mediúnico só foi levado em conta, quando esse discurso foi justamente posto em xeque por ter vindo de um espírito, que em um paradoxo absurdo negava entre outras coisas a vida após a morte. Por sorte ou azar, Dona Deise já não pensou em nada disso. A caminho de casa, descobriu o Rastafari.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A sinuca e o nada


E assim foi. O fim, a parte e o todo. Todos os pedaços que formam o nada. Que é exatamente o que isso quer dizer. Uma junção semi-elaborada de palavras que mantém entre si o mínimo necessário de coerência. Com a pontuação adequada e algum tempo de um desperdício necessário pode-se até encontrar alguma idéia oculta e filosófica... que obviamente não existe.

Mas apesar disso não dizer nada, e aparentemente esse fato tenha sido devidamente explicado no parágrafo anterior, ainda assim algo faz com que duvidemos até o último momento de verdades explícitas dessa forma. Principalmente verdades sobre fatos que deveriam ser no mínimo constrangedores. Como o desse texto não dizer nada.

Já se foram dois parágrafos, e para não abusar da boa vontade do leitor, que a essa altura já foi quase convencido, mas olha para baixo, vê o tamanho do texto e ainda duvida que não exista realmente nada nele, a melhor coisa a fazer seria aconselhá-lo a parar de ler e talvez indicar leituras que valham a pena, mas fazer isso seria inserir informações, o que deflagraria com toda a certeza que o que foi dito anteriormente é mentira. Encerrada a dúvida e a curiosidade, os textos, os livros ou os filmes perdem o sentido. O que nesse caso específico cria uma situação peculiar, já que foi afirmado nunca ter havido um sentido aqui, apesar de que a dúvida aparentemente foi mantida. Pelo menos nos que leram até aqui e chegam agora ao quarto parágrafo.

Talvez esse seja o melhor momento para se certificar da verdade. Se tiver paciência e muito tempo livre, reler os três primeiros parágrafos. Desistir nesse ponto também é válido. Apesar de que agora o texto já não pareça tão grande e a proximidade de um (im)possível final revelador torne justamente esses quatro últimos parágrafos muito mais atrativos do que os outros que já foram lidos.

Passado o momento quase reflexivo, aqui voltamos novamente ao nada, com o perdão se isso soou redundante. Não acredito que tenhamos fugido até agora ao que se afirmou, mas o quarto parágrafo foi mesmo um momento delicado. Mais duas ou três palavras poderiam configurar um ensinamento, instrução, humor, compartilhamento de experiência, ou qualquer outra sorte de tema usado para justificar o ato de escrever. Os mais ortodoxos devem parar por aqui e acusar-me de escrever mentiras ao invés de nada. Os que me perdoaram os parênteses em “(im)possível final revelador” e me perdoam agora essas aspas que também poderiam ser consideradas uma manipulação, acredito que não devem mais desistir. Talvez a essa altura já tenham aceitado a idéia de que tudo o que leram até agora não tem mesmo absolutamente nenhuma finalidade, assim como o que ainda está por vir. Continuam a ler simplesmente por compartilhar algo que, é claro, eu não posso explicar aqui o que seja. Não que eu saiba.

Depois de 470 palavras e com prováveis poucos leitores, descontadas as repetidas, artigos, conjunções, devem ter sido lidas pelo menos 300 palavras com sentido. Algumas inclusive com vários, entre elas a própria “sentido”. Não que isso tenha alguma importância ou revele o que quer que seja. As palavras obviamente são dotadas de sentido ou não existiriam, ao contrário desse texto, que apenas existe. Mas “existir” é uma palavra muito perigosa e qualquer descuido pode fazer o texto ser classificado como filosofia. Melhor passarmos para o sétimo parágrafo.

Sete pecados capitais, pintar o sete, sete dias da semana, sete cores do arco-íris, sete maravilhas do mundo, sete notas musicais. Terminar o texto com sete parágrafos poderia provocar especulações místicas ou astrológicas. Passamos ao oitavo e último.

Se esse fosse um texto com algum objetivo, e não apenas uma “junção de palavras que mantém entre si o mínimo necessário de coerência”, como se afirmou logo no início, para que esse objetivo fosse atingido aqui seria necessário uma explicação. É o último parágrafo, e apesar de que com isso a chance de perder os bravos leitores que resistiram até aqui seja bem pequena, não se pretende estendê-lo demais e muito menos explicar o que quer que seja, mas isso já deve ter ficado evidente nesse ponto. Faltam poucas linhas, e agora só uma frase absolutamente genial conseguiria justificar tudo o que foi escrito até aqui, sendo que esse tudo na realidade pretende-se que seja nada. E escrever uma frase genial que não diga nada não deve ser possível. Não resta muita coisa a se fazer. Apesar de os parágrafos não possuírem um tamanho delimitado e seja aceitável continuar indefinidamente nesse mesmo último parágrafo, já foi dito não ser essa a intenção. Quem ainda procura esse sentido inexistente e pensa ser capaz de atingir o extremo de reler esse texto mesmo após chegar ao final sem nenhuma teoria sobre o vazio, o nada, a existência, a verdade ou o que quer que seja, deveria receber aqui um conselho. Como o leitor certamente percebeu, é desnecessário dizer que o conselho não será dado. Já quem procura falhas, e momentos em que alguma forma de ensinamento, teoria, ou qualquer outra coisa que não seja simplesmente nada tenha sido dita, deve encontrar. Afinal, chegamos agora a quase mil palavras e mais de cinco mil caracteres divididos em oito parágrafos. O oito, aliás, é o número da bola, que em uma versão clássica, encerra o jogo de sinuca. Não que isso tenha algo relacionado com tudo ou com nada, mas concordo com os que irão afirmar que isso não deixa de ser um ensinamento para aqueles que nunca jogaram sinuca.

terça-feira, 22 de abril de 2008

As cores imaginárias

Um famoso dito popular afirma que o que os olhos não vêem o coração não sente. Despindo-o de sua poesia e encanto sintético, ele pode ser rescrito como que algo longínquo, ou do qual desconhecemos a existência, não é capaz de nos atingir. Pura mentira.

Os olhos não vêem os anos passarem. Também não enxergam durante esse tempo o resultado das escolhas que não foram feitas. No caso dos anos, apenas observam diante do espelho um corpo que aos poucos se desfigura e que recorda uma vida já quase desperdiçada ou vivida, porém nunca suficiente. Quanto aos resultados, deixam para a imaginação idealizar tudo aquilo que não existiu.

O coração, por sua vez, sente os efeitos de ambos. O passar do tempo o faz perder gradativamente a inocência da infância, os sonhos da juventude até encontrar paz, resignação ou arrependimento na velhice. E o que determina qual deles será encontrado no fim, talvez pudesse ser representado justamente pela divisão do tempo por nossas possibilidades. Se o resto da divisão parecer maior que o produto, seria um sinal de que as escolhas foram erradas.

No entanto essa conta não encontra um resultado. O resto sempre permanecerá representado por uma incógnita, o que torna impossível a comparação com o produto. A imaginação nunca condiz exatamente com o que viria a ser a realidade, apenas faz questão de pincelar em cores mais bonitas do que as que os olhos vêem, tudo aquilo que o coração pode ter perdido.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Os sonhadores

Paris vivia uma primavera conturbada em 1968. Barricadas, pedradas, tiros, gases lacrimogêneos e cocktails Molotov explodiam pelas ruas em confrontos que, na definição do filósofo francês Gilles Lipovetsky, “reivindicavam um novo individualismo”.

Alheios a toda revolução que ocorria do lado de fora, três jovens bebem, sonham, discutem cinema, o mundo, a vida...e fazem muito sexo.

Os jovens são o casal de gêmeos Isabelle e Theo, filhos de um famoso escritor francês, e o estudante norte-americano Matthew. Em “Os Sonhadores” de Bernardo Bertolucci, eles representam o contraponto do diretor italiano ao fim das utopias de 68, apresentado por Bertolucci em “Beleza Roubada” (em que Jeremy Irons representa os sonhos dessa geração e morre de câncer).

“Maio de 68 pode não ter instaurado a Revolução com que sonhávamos, mas resultou numa mudança profunda dos costumes. Acho que foi por isso que fiz "Os Sonhadores”, disse Bertolucci em entrevista ao jornalista Luiz Carlos Merten.


Mas talvez mais do que uma visão menos pessimista dos acontecimentos que agitaram à França no fim da década de 60, “Os Sonhadores” traga como principal questão o egoísmo revelado nesse contexto. Por que lutar por aquilo que já temos? A resposta “pelos outros” não é suficiente para Isabelle, Theo e Matthew deixarem o paradoxo da liberdade e da independência conquistadas encerrados dentro de uma mansão e com as contas pagas pelos pais, para saírem às ruas e lutarem por aquilo que também acreditam.

Não só em uma época em que as experiências socialistas ainda não haviam fracassado, os hippies sonhavam com um mundo de paz e amor e a Guerra do Vietnã conferia à estupidez humana uma confirmação após as duas guerras mundiais, levar uma vida como a dos três não parece uma má idéia.

O apanhador no campo de centeio (encarte Under)

Explicar “O apanhador no campo de centeio”, de Jerome David Salinger, não é tão fácil quanto ter certeza de que você nunca havia lido algo parecido. Não há vilões, reviravoltas, suspense ou tragédias. Ao invés disso, há um garoto de 17 anos e suas impressões, nem sempre simpáticas, do mundo e das pessoas.

Holden Caulfield é um adolescente rico que após ser expulso do colégio, resolve passar uns dias sozinho perambulando por hotéis, bares e ruas de Nova York. A história se concentra nesse período e na época do colégio, mas é contada em lembranças, narradas de um quarto de uma possível clínica psiquiátrica, onde ele se recupera de um esgotamento.

Holden considera a maioria das pessoas cretinas, falsas e interesseiras, e vê nas crianças a pureza e a sinceridade que gostaria de poder manter. O nome do livro é justamente uma metáfora dessa vontade, explicada por Holden em uma conversa com sua irmãzinha Phoebe. “Sabe o que eu queria ser? (...) Eu fico imaginando a beira de um precipício maluco. E sabe o que eu tenho que fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se algum deles sair correndo por ai sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer”.

Escrito em primeira pessoa e com uma linguagem para lá de coloquial, “O apanhador...” talvez seja um dos livros mais cultuados de todos os tempos. E não é para menos. A genialidade de J.D Salinger, em dar forma e ritmo à seqüência de anseios e angústias de Holden, pinceladas com ironias ácidas, humor negro e um realismo, as vezes cruel, mas sempre verdadeiro, diferenciam a narrativa de, provavelmente, tudo já realizado antes.

O livro foi escrito em 1951, uma época em que as escolas e os pais não eram tão tolerantes e os adolescentes não tinham liberdade para discutir muita coisa. O que de certa forma, “O apanhador..”,ajudou a mudar, ao relembrar o adulto que lê o livro um pouco do que ele pensava com seus 17 anos. Não todos, evidentemente. O “apanhador..” não é um livro para todos. Muita gente vai achar o Holden um cretino, assim como a recíproca, na certa, seria verdadeira. O improvável é alguém ficar indiferente.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

TIM FESTIVAL (encarte Under)

Escatologia, loucura, água a 5 reais, Bjork, Arctic Monkeys e The Killers: impressões de alguém que não viu o começo, passou mal durante e não queria ir embora no fim.


A Bjork já cantava e um bando de gente ouvia em silêncio a apresentação da moça, quando o microônibus que me levava à Pedreira Paulo Leminsky, local do Tim Festival em Curitiba, chegou por lá. Na saída de Florianópolis, um fiscal de algum órgão do Governo de Santa Catarina, que tinha um rolo antigo mal resolvido com o motorista, resolveu aplicar a lei em todos os detalhes esquecidos para cima da nossa excursão. “Eu vou chamar a polícia para vir dá uma olhada nisso aqui”, ameaçava, enquanto alguns dos passageiros suavam frio com a informação. O que uma excursão para um festival de rock, cheia de gente entre 18 e 25 anos, muitas delas de porte de algumas substâncias entorpecentes não permitidas, precisava era de alguma interação com os “homi”.

De fato o fiscal chamou a polícia, que veio, deu uma olhada nos papéis que ele dizia estarem irregulares, não deu muita bola e foi embora. Dava para sentir a cólera no olhar que aquele senhor baixinho, enrugado e um tanto parecido com o Mario (daquele famoso jogo de videogame) dirigia ao nosso motorista, que tentava fingir disfarçar um sorrisinho malicioso de vitória. Por fim o fiscal entrou no ônibus, coçou a cabeça, e, sem perder a pose de autoridade, mas agora um pouco esquisito, meio que com vergonha, disse que nos liberava.

Com duas horas de atraso, partíamos rumo a Curitiba. Quando chegamos, a banda Hot Chips já havia se apresentado, mas como eu não conhecia ela mesmo, não foi um choque muito grande e meu espírito se alegrava com a visão daquilo tudo. No palco iluminado com dezenas de holofotes coloridos e decorado com imagens psicodélicas e gravuras que também não faziam lá muito sentido, a Bjork dividia espaço com um pessoal estranho, que tocava instrumentos de sopro e vestia fantasias que lembravam as propagandas do Cirque do Soleil. Na minha frente, sob o céu estrelado da capital paranaense, 17 mil pessoas, não cantavam nem pulavam, mas aplaudiam satisfeitas o final de cada música.

Chegar mais perto do palco agora era o objetivo e meu corpo se comprimia em corredores de gente que iam desaparecendo aos poucos e então era preciso desbravar novos caminhos. Empurrões para cá, puxões para lá, depois de muita luta cheguei bem próximo e podia até, entre uma canção e outra, falar alguma coisa para a Bjork, se eu tivesse algo interessante a dizer. Mas era muita gente apertada, calor, cheiro de cerveja e eu quase gorfei em cima de uma mulher de cabelo verde. Desviei a tempo para o chão e dando continuidade à escatologia, uma menina que estava do meu lado me informou indignada que um cara havia posto o pênis para fora e urinado na perna dela.

Vi que era hora de sair dali e meus sentidos voltaram à normalidade, sentado em um morrinho de areia, à esquerda do palco. Nesse oásis de tranqüilidade, pude observar melhor a apresentação. A Bjork vestia uma espécie de camisola verde e estava descalça. Pulava, balançava a cabeça e corria sempre que parava de cantar. Ela não tem músicas conhecidas por muita gente, mas mesmo assim foi um show que agradou bastante. Ela deve ter falado “obrigata”, umas 20 vezes, em agradecimento aos aplausos.

Depois da Bjork, subiram ao palco Arctic Monkeys e The Killers. Da primeira eu esperava mais, já que até o Noel Gallagher do Oasis, que não fala bem de ninguém, além dele e do John Lennon, elogiou essa banda. Na semana antes do Tim Festival, meus ouvidos inclusive estavam sendo preparados para tentar curtir esse show. Escutei dia e noite a discografia deles (que são só três discos), para quem sabe gostar de algumas músicas. Não teve jeito, não consegui e fui para o show com a esperança de ao vivo eles serem mais legais. Não são! Tocam quase igualzinho ao cd. O mesmo rock repetitivo, apoiado em uma bateria rápida e guitarras sem grandes novidades, com um ou outro momento de inspiração. Depois do show apaguei do meu Mp3, acredito que para sempre, os Arctic Monkeys.

O The Killers fez o show que era esperado. É uma boa banda, com algumas canções geniais, como “Mr. Brightside” e “Somebody told me” e outras para cumprir tabela. Eles vestiam algo parecido com um terno e o palco foi decorado com lâmpadas, dessas pequenininhas que a gente vê em tudo quanto é lugar no Natal.

Quando o The Killers saiu do palco, as luzes foram apagadas e todo mundo foi embora. Isso às 2h da manhã. Tem festival de rock de garagem aqui em Tubarão que acaba bem mais tarde. Faltou mais um showzinho, nem que fulero mesmo. Mas fora isso, o Arctic Monkeys e a água, a cerveja, o sanduíche e qualquer outra coisa serem vendidos a R$ 5 (segundo o vendedor para facilitar o troco), o Tim Festival cumpre àquilo ao que se propõe. Só que seria mais divertido viver “sem fronteiras entre você e a música” até pelo menos umas 4h da manhã...de preferência recebendo troco.